Sexta-feira, Setembro 22, 2006

O Amor é fodido


"Nascemos todos com vontade de amar. Ser amado é secundário. Prejudica o amor que muitas vezes o antecede. Um amor não pode pertencer a duas pessoas, por muito que o queiramos. Cada um tem o amor que tem, fora dele. É esse afastamento que nos magoa, que nos põe doidos, sempre à procura do eco que não vem. Os que vêm são bem-vindos, às vezes, mas não são os que queremos. Quando somos honestos, ou estamos apaixonados, é apenas um que se pretende.
Tenho a certeza que não se pode ter o que se ama. Ser amado não corresponde jamais ao amor que temos, porque não nos pertence. Por isso escrevemos romances - porque ninguém acredita neles, excepto quem os escreve.
Viver é outra coisa. Amar e ser amado distrai-nos irremediavelmente. O amor apouca-se e perde-se quando quando se dá aos dias e às pessoas. Traduz-se e deixa ser o que é. Só na solidão permanece...

O amor é fodido. Hei-de acreditar sempre nisto. Onde quer que haja amor, ele acabará, mais tarde ou mais cedo, por ser fodido. [...]"

Miguel Esteves Cardoso

Quinta-feira, Setembro 07, 2006

"Talvez" - The Gift


Talvez por não saber falar de cor, imaginei...
Talvez por saber o que não será melhor, aproximei...
O meu corpo é o teu corpo, o desejo entregue a nós
Sei lá eu o que queres dizer,
Despedir-me de ti, adeus, um dia voltarei a ser feliz,
Eu já não sei se sei o que é sentir o teu amor, não sei o que é sentir
Se por falar falei, pensei que se falasse era fácil de entender...
Talvez por não saber falar de cor, imaginei...
Triste é o virar de costas, o último adeus,
Sabe Deus o que quero dizer...
Obrigado por saberes cuidar de mim...
Tratar de mim...
Olhar para mim...
Escutar quem sou...
E se ao menos tudo fosse igual... a ti... e eu...
Eu já não sei se sei o que é sentir o teu amor, não sei o que é sentir
Se por falar falei pensei que se falasse era mais fácil de entender...
Eu já não sei se sei o que é sentir o teu amor, não sei o que é sentir
Se por falar falei pensei que se falasse era mais fácil de entender...

Segunda-feira, Julho 10, 2006

Mão Querida (Orxestra Pitagórica)


Mão querida, mão querida
Nunca me dizes que não
Não há mulher nesta vida
Melhor do que a minha mão


Feliz de quem não é maneta
Tem duas mãos para tocar corneta
Feliz de quem compreendeu
Que só uma mão é que dá prazer

Graças a Deus que eu tenho ainda
A minha mão para evitar a sida
Cinco dedinhos, pura magia
Que sensação ao acabar o dia

Mão querida, mão querida
Nunca me dizes que não
Não há mulher nesta vida
Melhor que a minha mão


Com a minha mão, posso fazer
Todos os dias se me apetecer
Corno eu não sou, nem vou ficar
Com a minha mão eu vou me casar

Juntos para sempre, até morrer
Levo para a cova para me entreter
Feliz de quem não é maneta
Tem duas mãos para tocar corneta

Mão querida, mão querida
Nunca me dizes que não
Não há mulher nesta vida
Melhor do que a minha mão

Segunda-feira, Novembro 21, 2005

A carta...





"Cara ….,

Não te mandei a carta em papel perfumado, com letras vertidas a tinta
de caneta e caligrafia cuidada, escorreita, inclinada para a direita,
em linhas paralelas, transpirando segurança; ou, pelo contrário:
trapalhona, com rasuras denunciadoras de hesitação e nervosismo ansioso, mesmo que a um olhar pouco perspicaz.

E não soprei a folha manuscrita, como de costume, após a afagar com os nós dos dedos, para lhe afastar hipotéticas impurezas, nem a dobrei cuidadosamente no formato do invólucro. Também não lambi o selo, nem tampouco a fímbria do envelope: perdi assim o gozo da sensação adocicada da cola, mas ganhei no risco, não corrido, de ofender a língua no gume afiado do papel. Não preenchi remetente, nem endereço, e menos ainda o código infindo, cada vez mais longo de algarismos que nunca ninguém sabe.

Finalmente, não desci à rua em busca daquele, gordo e hirto, tubo de
ferro fundido, que dantes era só vermelho vivo, de chapéu preto, de
inerme boca aberta, com relógio ao peito, de um ponteiro só, que
indica a hora que há-se ser quando alguém virá aliviar-lhe as
entranhas, e que agora é secundado por um clone azul-bebé que, dizem, é mais rápido, para nele introduzir o subscrito, confiando que
chegaria ao teu destino mais dia, menos dia.

Ganhei coragem e mandei-a, sim, mas na segurança asséptica, insípida e inodora, de zeros e uns, estúpidos e frios; sins e nãos, codificados pelo pisar das teclas de um caixote mágico que, onde luz, me pinta letras generosas, e me permite num piscar de olhos: recuar, saltar, mover, rasurar, sem nunca borrar ou rasgar, sem nunca se cansar ou protestar, sem nunca me denunciar.

Assim, sem sombra de mácula, abençoada por um corrector que acautela a gralha, com letra à la carte, bastou-me premir nos olhos de um bicho, roedor sem pêlo, de longa cauda, e ela lá foi, veloz, através de cabos, excitados por correntes mínimas, tão úteis quanto indiferentes ao que levam, até ao teu e-mail; termo exótico, mas, convenhamos, bem mais simples que: tua caixa de correio electrónico.

No entanto, ao tentar relê-la, com a atenção de distraído e o cenho de
céptico, noto que, por mais voltas que lhe dê, não lhe falta nada: a
força e determinação da palavra estão lá! Está lá tudo, incólume; pese
embora lida a partir de uma imagem, escarrapachada em vidro - assim, como quem lê televisão - mantém o seu integral poder demolidor ou apaziguador, desperta os mesmos sentimentos e paixões, lágrimas e sorrisos, que as palavras manuscritas.

(in Nova Era)

''Cheiro a Pêssegos''







Por acaso, ou talvez não, o que é certo é que aconteceu. Nem ela sabe, nem eu. Se lhe forem perguntar, ela nega. Se me perguntarem a mim, eu mando-vos perguntar a ela. Ela é arrogante. Não quer admitir que gostou. Diz que eu abuso da sorte, mas quem teve sorte foi ela. E teve sorte porque não estava ninguém em minha casa, porque se estivesse a história tinha sido outra.

"- Tenho cara de puta? - atirou ela, de chofre.
- Desculpa? - fui apanhado de surpresa, mas não perdi a pose.
- Se tenho cara de puta.
- Á primeira vista não. - Disse eu, ainda indeciso se era esta a resposta certa.
- Pelo que me estás a pedir, parece.
- O que pedi eu assim tão promíscuo?
- Não foi essa a educação que recebi. - Reforçou ela orgulhosa."

Não foi essa que recebeste mas é assim que eu te vou educar. Não disse, mas pensei. Não disse isto nem mais nada depois disto. Ela pegou-me na mão, eu sacudi. Ela encostou-se, eu empurrei. Cansado de tentar descobrir uma fenda no tecto levantei-me:

"- O que estás a fazer? - perguntou ela.
- Não te parece óbvio? - atirei eu, arrogante, com o isqueiro na mão.
- Vais fumar assim para a varanda? - perguntou ela, a modos que surpreendida.
- Assim como?
- Assim... sem roupa! - O ponto de exclamação fez-me perceber que ela estava mesmo surpreendida.
- Sim vou fumar para a varanda.
- E os vizinhos? - atirou ela, preocupada.
- Os vizinhos fumam onde quiserem."

Ela riu-se, eu não. Sem querer omitir pormenores, porém, correndo esse risco, foi assim que tudo se passou. E podia ter acabado por aqui, mas o que é certo é que não acabou. As visitas á varanda repetiram-se, pela noite dentro, enquanto o maço durou. A cópula, ao inico rude e sem graça, foi melhorando á medida que ela perdia a educação e á medida que eu perdia a paciência. Por um lado sabor a pêssegos, por outro já não. Porém, foi com este sabor e com o odor a pêssegos acabados de colher que a noite se passou, e com ela chegou o dia.
Levantei-me e ela ainda dormia. Pelo sim pelo não deixei 50€ na mesa aos pés da cama e fui tomar banho. Não sei se por acaso, ou não, o que é certo é que quando voltei tinha lá 25€ de troco e um bilhete que dizia "Vou tomar o pequeno-almoço a casa".
E assim corre a vida na terra do amanhã que nunca chega...

(in lenhadores)

Quinta-feira, Outubro 27, 2005

Eu não sei dizer...



O silêncio deixa-me ileso, E que importância tem?
Se assim tu vês em mim alguém melhor que alguém.
Sei que minto pois o que sinto não é diferente de ti.
Não cedo, Este segredo é fragil e é meu.
Eu não sei tanto sobre tanta coisa que às vezes tenho medo
de dizer aquelas coisas que fazem chorar.
Quem te disse coisas tristes não era igual a mim.
Sim, eu sei que choro, mas eu posso querer diferente para ti.
Eu não sei tanto sobre tanta coisa que às vezes tenho medo
de dizer aquelas coisas que fazem chorar.
E não me perguntes nada.

Eu não sei dizer...

Adeus.



Já gastamos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastamos tudo menos o silêncio.
Gastamos os olhos com o sal das lágrimas,
gastamos as mãos á força de as apertarmos,
gastamos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tinhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
As vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastamos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
ja não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
so de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não ha nada que me peça àgua.
O passado e inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

Quarta-feira, Outubro 26, 2005

Gosto (e mai nada!)



Gosto de sol
gosto de chuva
gosto quando gosto com paixão
gosto quando me rio
gosto qUando choro
gosto quando sorrio
gosto quando me dá prazer...
gosto por gostar

Quinta-feira, Outubro 13, 2005

Não gostes do amor...

Nao gostes do amor... Gosta de alguém que te ame, alguém que te espere,
alguém que te compreenda, mesmo nos momentos de loucura,e alguém que te
ajude, que te guíe, que seja o teu apoio,a tua esperança,o teu tudo.
Gosta de alguém que nao te traia, que seja fiel, que sonhe contigo,
que só pense em ti, que só pense no teu rosto, na tua delicadeza,
no teu espírito e não no teu corpo nem nos teus bens...
Gosta de alguém que te espere até o final, de alguém que seja quem
tu escolheres. Gosta de alguém que sofra junto contigo, que ría
junto a ti, que limpe as tuas lágrimas, que te abrigue quando necessário,
que fique feliz com tuas alegrias e que te dê forças depois de um fracaso.
Gosta de alguém que volte para conversar contigo depois das brigas,
depois do desencontro, de alguém que caminhe junto a ti, que seja companheiro,
que respeite as tuas fantasias, as tuas ilusões. Gosta de alguém que te ame.
Não gostes apenas do AMOR, gosta de alguém que sinta o mesmo sentimento por ti,
que goste realmente de ti.